terça-feira, 15 de março de 2011

Reflexões paulistanas em terras cariocas - Parte 1








A primeira sensação de um paulistano em terras cariocas - se ele viaja por vontade própria, claro-, é de tranquilidade. A brisa do mar, a forma de se vestir, mesmo de caminhar, tudo ganha ares de informalidade. A receptividade é calorosa, a simpatia é marcante, pondo em relevo como o preconceito é maior por parte dos paulistanos que dos moradores da cidade maravilhosa.

Contudo, raras são as relações que se aprofundam; o carioca sorri, mas não estende a mão; faz aquele tipo de convite sem dar dia, hora, endereço. Já os habitantes do Rio que vieram de outros lugares portam-se de maneira oposta: logo é possível conversar com eles como se os conhecesse há décadas. Concluí que a imagem que se tem do Rio de Janeiro se deve mais aos que para cá migraram (ou imigraram) que propriamente ao povo nativo.

Mas - para que negar? -, o carioca tem um charme único. É capaz de falar frases inteiras sem utilizar nenhuma consoante (minha predileta, por exemplo, “ó o auê aí, ó!”). Em geral, é paciente para dar informações, e usa o termo “porra” como prefixo de qualquer nome próprio referente a pessoas, de forma despojada. No entanto, sem dúvida a melhor parte de morar no Rio é estar nele ao escutar as músicas que falam sobre a cidade; ouvir “Eu sou o samba, sou natural aqui do Rio de Janeiro” e estar efetivamente aqui, no Rio de Janeiro, é como fazer parte do cenário da música popular brasileira. Tremenda responsabilidade, que assumo como se fosse uma importante tarefa a ser cumprida; passando ao lado de grupos e grupos de gringos, cantarolo em minha cabeça “ela é carioca, ela é carioca” e faço ares de cheia de graça.

O sorriso pendurado feito um quadro no rosto carioca some rapidamente quando se pergunta a um deles, no meio da rua, se possui um isqueiro. Geralmente ele respira fundo e fala pausada e articuladamente, “Eu não fumo”, com a ênfase na negativa, logo antes de te olhar dos pés até a cabeça com trejeitos de reprovação. Muito mais seguro esperar que alguém passe com o cigarro entre os dedos, assumindo abertamente seu vício. A exceção é Paquetá, onde perguntar se há algum lugar onde é possível comprar cigarro a varejo significa invariavelmente ganhar um cigarro de graça e tê-lo acendido em suas mãos no tempo médio de sete segundos. É a solidariedade dos viciados falando alto entre os habitantes da decadente –mas ainda assim charmosa- ilha que mora no mar.

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