segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Uma questão de semáforos?

Hoje, em um cruzamento na região central de Buenos Aires, uma moto e uma bicicleta se chocaram de frente. Eu caminhava pelas ruas portenhas indo almoçar pouco depois do horário corriqueiro - a noite de ontem se estendeu mais do que o esperado, e por isso meu sono também se prolongou. Um policial como que brotou do chão, orientando o trânsito e os primeiros socorros. Um dezena de pessoas parou para auxiliar os dois feridos, de vinte e poucos anos cada um. Outras dezenas se acumularam nas extremidades das vias, observando de longe, sem saber o que fazer. Em cerca de 10 minutos chegaram duas ambulâncias.
Aqui em Buenos Aires praticamente todos os semáforos são de dois tempos: ou seja, quando está aberto o farol para os pedestres, está também aberto para os carros que querem entrar naquela via. O mesmo acontece em Santiago, no Chile. Em ambas as cidades, no entanto, a preferencial é do pedestre, e o motorista que quer entrar em determinada rua tem que esperar até que todos atravessem. Meu primeiro pensamento de paulistana quando vi isso foi: "não tem chance de uma coisa dessas dar certo".
Engano meu. Em Santiago a coisa funciona muito bem. Os motoristas em geral são calmos e antes mesmo que o pedestre coloque o pé na faixa, os carros se põem a aguardar pacientemente.
Em Buenos Aires, "paciência" não está na moda. A preferencial muitas vezes é completamente descartada. Taxistas, motoristas de carros de passeio e de ônibus, todos parecem ter seus momentos de cegueira ao passar sem diminuir a velocidade pelas faixas de pedestre. As motos são mais ousadas: elas são o meio de transporte mais rápido da capital argentina, e rasgam a rua buzinando a uma velocidade em que até mesmo desviar de algo que esteja na frente parece impossível. Inútil dizer que hoje a preferencial era da bicicleta (e minha, já que eu também começava a atravessar a rua a poucos metros do lugar onde a moto atropelou o ciclista).
Ao meu redor, os comentários: aqui, como em qualquer lugar do mundo, os motoqueiros e motociclistas gostam das motos, e todos os outros moradores detestam esse meio de transporte inevitavelmente perigoso do fundo da alma. Moto tem que ser proibida, dizia um, ao meu lado. Moto não deve fazer parte de uma cidade grande como Buenos Aires, dizia o outro.
Eu, de minha parte, penso que moto devia seguir o código de trânsito. Quem usa moto pra recortar os congestionamentos e tirar vantagem devia perder a licença. Para sempre. Poucos sabem que as motos foram pensadas para ocupar o mesmo espaço de um carro, e andar mantendo 2 metros de distância de qualquer outro veículo, por motivo dessa tal "segurança". Imagino a cifra que o estado gasta mensalmente em cuidados hospitalares com motoqueiros e motociclistas imprudentes. O que poderia estar sendo feito com esse dinheiro?
Uma vez me contaram que certa pessoa disse que essa pseudo ousadia dos amantes das duas rodas era uma coisa boa, pois aumentava a quantidade de orgãos disponíveis para doação. A frieza do olhar da elite me descompõe. Mas para a máquina das grandes cidades motoqueiros significam mais ou menos isso: menos dinheiro para ser investido em saúde pública, mais orgãos para serem doados, e um punhado de retrovisores quebrados.
A verdade é que eles morrem, e eles matam, e não parecem dispostos a manejar seus instrumentos (que parecem assumir aspecto relativamente freudiano) de outra maneira.
E eu, bem, eu perdi a fome.

8 comentários:

Fernanda Sais disse...

Li, ok, mas: motoqueiros e motociclistas imprudentes não devem ser motivo para odiar o veículo de transporte... quantos motoristas de carro e ônibus também não temos fazendo suas bobagens pelo trânsito?
Não se esqueça que sua irmã deve a vida a dois motociclistas. :P

lilian falando... disse...

Não odeio moto, mas sim o uso que fazem dela. Como disse, acho que elas deviam seguir as leis de trânsito, apenas isso. Assim todos ficariam felizes: os que querem andar de moto e os que querem chegar em casa no fim do dia, sãos e salvos.
:P

Rodrigo Torrealba Montaldo disse...

"Uma vez me contaram que certa pessoa disse..." foi ótima...hehehe

Em São Paulo, acredito que a imprudência é característica de todos os veículos, inclusive os não-motorizados, como a bicicleta. Talvez a imprudência das motos seja acentuada pelo seu tamanho e rapidez, muitas vezes.

lilian falando... disse...

sem dúvida, em sp todos os meios de transporte se desrespeitam em certa medida. mas quantas motos alguém já viu não recortando o trânsito? este fato eu nunca testemunhei... essa maneira incorreta de se guiar a moto já está incorporada de tal maneira aos hábitos na américa latina que não se cogita que elas se portem diferentemente...

e quem paga o pato?

Bruno Barrio disse...

deveria escrever para o jornal!

Karen disse...

li, adorei o texto.
como estava com vc na hora do acidente, pudemos conversar sobre isso no almoço.
agora, só tenho uma coisa pra dizer:
vamos dar uma volta no quarteirão?

Vivi de Andrômeda, cada vez mais nebulosa disse...

É a velha história do respeito cabe em todos os lugares. Sempre que alguém esquece isso, acontecem os problemas. Afinal, até mesmo os pedestres causam acidentes quando resolvem agir negligentemente. Como vc disse, motociclistas deviam respeitar as leis de trânsito, assim como os motoristas de carro, de lotações (eehhhh realidade paulistana!!), os pedestres... meus vizinhos que atravessam a rua correndo atrás de pipas!!
Todo cuidado é pouco quando vc pode morrer ou matar alguém... falando nisso, vc soube o que houve com os envolvidos no acidente que vc presenciou?

sem nome disse...

Oi flor! Sabe, semana passada eu combinei de comer um pastel famoso aqui na zona sul, o da feira da rua Bela Vista. Para minha surpresa, meu amigo passou aqui de moto. Eu apenas disse: “Você quer deixar a moto dentro ou na rua mesmo?” “Não, nós vamos com ela.” E me deu um capacete. Depois de uns 10 minutos de relutância aceitei com umas 30 condições “Vai devagar, não costura, não passa perto de ônibus...” e um tanto de perguntas ingênuas “O que eu faço na hora da curva? Como ‘abotoa’ o capacete? É pela marginal?”
Essa primeira experiência não foi traumática não, meu amigo foi o mais seguro possível, mas continuo achando que nosso sistema de trânsito é uma enorme teia caótica e que os motoqueiros a arrematam de forma desesperadamente louca.
Beijo, vi.